quarta-feira, 12 de maio de 2010
Poeira de prateleira
Agora, estão os dois dançando mortalmente em um quarto em chamas. Lentamente, balançam num ritmo parecido com as luzes. Ou sombras. É meio difícil distinguir. O cenário é bem bonito, dramático. A boca dela sangra, e lembra-se dos beijos que deixaram marcas e feridas. No corpo dele, os machucados parecem cada vez piores e escuros. Se olham, e não sabem se amam ou se odeiam. Qual a diferença? Só sabem que sentem algo, forte e aburdo um pelo outro. Exagerados. Do coração ao fígado, puro exagero. E agora, ali, eles que sempre arderam a alma de coisas explosivas, agora ardem o corpo de fogo. Fogo vivo, puro. Literalmente. E continuam dançando, desajeitados, e morrendo. Derretem, viram cinza, cera, meleca, pó, pozinho, a última coisa que sentiram na vida: ser pó. E de tanto não caberem no pó, se espalharam de coração em coração se tranformando, aos poucos, em dor.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Puppet
Karenin, distraída como sempre, não percebeu quando ele chegou. Só notou a presença dele quando sentou no mesmo brinquedo que ela e quase a fez cair. Não lembra o que pensava, mas não devia ser nada importante. De qualquer forma, teria esquecido o que pensou nas duas últimas semanas só de ver ele na sua frente, com o cabelo bagunçado, sem óculos, sem ter pedido pra vim. Sentiu um tremorzinho no coração. Não gostava dele, só foi o susto. Por que ele estava ali? Não queria perguntar, não queria falar, não queria que ele estivesse tão perto. Era tão constrangedor. Ele causava coisas horríveis nela, como era capaz? Tudo por causa de um sentimento idiota não-recíproco. Morria de pena de machucar as pessoas. Mas era tão maldosa, sem querer. Ryan, o menino, adorava tudo nela. A bochecha, o olho, a timidez, o ombro, a unha azul. O azul daquela unha era um dos mais bonitos que já tinha visto no mundo. Azul clarinho. E logo se lembrou de pedir "me deixa morar nesse azul". Karenin entendeu tudo. Ele não sabia disfarçar. Remexia e o balanço ia cada vez mais forte, sem perceber. Sem falar. Ryan arriscou o "oi". Que idiota que era, esqueceu de dizer "oi", porque se perdeu em tantas coisas que haviam mudado nela desde que tinham se visto. Ela estava mais amarela, mas não deixava de ser absolutamente linda. E ele, mais vermelho a cada encontro de olhar. Karenin, de fato, adorava provocar sensações sem graça. Ele merecia, depois de tudo que estava fazendo ela passar por estar ali. Então ignorou o "oi" e começaram a conversar coisas bobinhas. Apesar de tudo, era bom alguém querer escutar os segredos de Karenin. Alguém se sentir interessado por tudo que você diz, é quase tudo que precisa, de vez em quando. Devia aproveitar. Contou tudo dos últimos meses, nos mínimos detalhes, com as mais sinceras emoções e um leve tom de exagero. Ryan sorria e se sentia bestinha por ser completamente apaixonado pela menina mais divertida que conhecera no mundo. E ele sabia, sabia que ela debochava... continuava sabendo e continuava amando. Mas não era capaz de se odiar por isso, ela o fazia tão bem. Conseguiu até mudar seus piores hábitos. Karenin lembrou-se das uvas passas que tinha no bolso e ofereceu, quem sabe gostasse um pouco dele. Só não poderia gostar como gostava de uvas passas. Porque sentimento passa. Ela era a pessoa mais brega do mundo. E ele o mais sincero. Mas sinceridade demais é burrice. E era isso que ela detestava. Não tinha como. Não dava. Nunca ia ser igual. E a conversa fluia como velhos amigos. Só os sentimentos que não eram de amigos. É engraçado, fingir ser amigos quando um não quer ser amigo e o outro quer muito mais que isso. Continuaram a balançar no balanço que se um saísse, o outro caia. Karenin levantou. Ia embora. Alguém tinha que ir. Rudy ficou, balançado com a saída rápida dela. Ficou como sempre ficava, torcendo para que ela não soubesse que a seguiu até ali. Torcendo para que não soubesse que nunca ia desistir. E Karenin torcendo pra que ele ficasse bem. Bem longe dela, também.
Bite me
23 de Outubro de 2007
(Últimas palavras da terceira carta)
Espero que goste do livro. Foi inevitável ler a primeira página e não lembrar de você. Só que eu lembro de você sempre... só foi uma memória mais forte, viva, querida. Sinto saudades. Por isso fico enviando essas coisas idiotas, assim... até um broche da Amélie Poulain eu mandei. Ai, como o mundo deve achar isso brega. Mas escrevi pra você no meio do livro, pra poder me sentir mais de perto, só um pouquinho. Eu queria te ter aqui, e te ouvir ler em voz alta, como sempre gostou. Mas eu juro que a cada página imaginei sua voz meiga dizendo cada fonema. Me peça o que quiser, juro que me reviro pra te dar. Saudades eternas.
Do seu Federico
13 de Janeiro de 2008
(Primeiras palavras da última carta)
Oi, meu querido Federico
Fiquei muito tempo pensando no que poderia pedir. É tão bom poder pedir alguma coisa pra alguém sabendo que ela vai estar disposto a fazer, sabe? Me sinto tão lisonjeada, amada, querida. Tenho tanto a agradecer. Mas eu não poderia deixar de dizer: na próxima carta quero um pedaço seu. E me desculpe, ser assim, vai ter que me perdoar, mas preciso de sua boca e nada mais. É isso, sem rodeios, na próxima carta, quero que tua boca venha junto. Eu sei que poderia pedir os olhos, os braços, as pernas, o coração, o pau. Ah, o pau. Não ache graça. É que somos tão palavras e mesmo sem nunca ter nos olhado de fato nos olhos, aposto que sei lê-los de trás pra frente. Fico orgulhosa disso. E não quero eles. Quero sinceramente, que minhas palavras fiquem presas na sua boca. Até ficarmos sem fôlego. Tenho que dizer, antes disso, porque não peço o coração. Só não peço o coração, meu amor, porque o meu já é seu a muito tempo, e acredito que seja recíproco. E é tão bom poder sentir esse coração aqui dentro, sem nem ter pedido permissão. Voltando. Preciso de sua boca. Não aguento mais essas baboseiras. É claro que preciso, preciso muito! E quero agora. Quero beijar, morder, e te ver sorrir. E isso é tudo que poderia pedir.
(Últimas palavras da terceira carta)
Espero que goste do livro. Foi inevitável ler a primeira página e não lembrar de você. Só que eu lembro de você sempre... só foi uma memória mais forte, viva, querida. Sinto saudades. Por isso fico enviando essas coisas idiotas, assim... até um broche da Amélie Poulain eu mandei. Ai, como o mundo deve achar isso brega. Mas escrevi pra você no meio do livro, pra poder me sentir mais de perto, só um pouquinho. Eu queria te ter aqui, e te ouvir ler em voz alta, como sempre gostou. Mas eu juro que a cada página imaginei sua voz meiga dizendo cada fonema. Me peça o que quiser, juro que me reviro pra te dar. Saudades eternas.
Do seu Federico
13 de Janeiro de 2008
(Primeiras palavras da última carta)
Oi, meu querido Federico
Fiquei muito tempo pensando no que poderia pedir. É tão bom poder pedir alguma coisa pra alguém sabendo que ela vai estar disposto a fazer, sabe? Me sinto tão lisonjeada, amada, querida. Tenho tanto a agradecer. Mas eu não poderia deixar de dizer: na próxima carta quero um pedaço seu. E me desculpe, ser assim, vai ter que me perdoar, mas preciso de sua boca e nada mais. É isso, sem rodeios, na próxima carta, quero que tua boca venha junto. Eu sei que poderia pedir os olhos, os braços, as pernas, o coração, o pau. Ah, o pau. Não ache graça. É que somos tão palavras e mesmo sem nunca ter nos olhado de fato nos olhos, aposto que sei lê-los de trás pra frente. Fico orgulhosa disso. E não quero eles. Quero sinceramente, que minhas palavras fiquem presas na sua boca. Até ficarmos sem fôlego. Tenho que dizer, antes disso, porque não peço o coração. Só não peço o coração, meu amor, porque o meu já é seu a muito tempo, e acredito que seja recíproco. E é tão bom poder sentir esse coração aqui dentro, sem nem ter pedido permissão. Voltando. Preciso de sua boca. Não aguento mais essas baboseiras. É claro que preciso, preciso muito! E quero agora. Quero beijar, morder, e te ver sorrir. E isso é tudo que poderia pedir.
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