segunda-feira, 10 de maio de 2010
Puppet
Karenin, distraída como sempre, não percebeu quando ele chegou. Só notou a presença dele quando sentou no mesmo brinquedo que ela e quase a fez cair. Não lembra o que pensava, mas não devia ser nada importante. De qualquer forma, teria esquecido o que pensou nas duas últimas semanas só de ver ele na sua frente, com o cabelo bagunçado, sem óculos, sem ter pedido pra vim. Sentiu um tremorzinho no coração. Não gostava dele, só foi o susto. Por que ele estava ali? Não queria perguntar, não queria falar, não queria que ele estivesse tão perto. Era tão constrangedor. Ele causava coisas horríveis nela, como era capaz? Tudo por causa de um sentimento idiota não-recíproco. Morria de pena de machucar as pessoas. Mas era tão maldosa, sem querer. Ryan, o menino, adorava tudo nela. A bochecha, o olho, a timidez, o ombro, a unha azul. O azul daquela unha era um dos mais bonitos que já tinha visto no mundo. Azul clarinho. E logo se lembrou de pedir "me deixa morar nesse azul". Karenin entendeu tudo. Ele não sabia disfarçar. Remexia e o balanço ia cada vez mais forte, sem perceber. Sem falar. Ryan arriscou o "oi". Que idiota que era, esqueceu de dizer "oi", porque se perdeu em tantas coisas que haviam mudado nela desde que tinham se visto. Ela estava mais amarela, mas não deixava de ser absolutamente linda. E ele, mais vermelho a cada encontro de olhar. Karenin, de fato, adorava provocar sensações sem graça. Ele merecia, depois de tudo que estava fazendo ela passar por estar ali. Então ignorou o "oi" e começaram a conversar coisas bobinhas. Apesar de tudo, era bom alguém querer escutar os segredos de Karenin. Alguém se sentir interessado por tudo que você diz, é quase tudo que precisa, de vez em quando. Devia aproveitar. Contou tudo dos últimos meses, nos mínimos detalhes, com as mais sinceras emoções e um leve tom de exagero. Ryan sorria e se sentia bestinha por ser completamente apaixonado pela menina mais divertida que conhecera no mundo. E ele sabia, sabia que ela debochava... continuava sabendo e continuava amando. Mas não era capaz de se odiar por isso, ela o fazia tão bem. Conseguiu até mudar seus piores hábitos. Karenin lembrou-se das uvas passas que tinha no bolso e ofereceu, quem sabe gostasse um pouco dele. Só não poderia gostar como gostava de uvas passas. Porque sentimento passa. Ela era a pessoa mais brega do mundo. E ele o mais sincero. Mas sinceridade demais é burrice. E era isso que ela detestava. Não tinha como. Não dava. Nunca ia ser igual. E a conversa fluia como velhos amigos. Só os sentimentos que não eram de amigos. É engraçado, fingir ser amigos quando um não quer ser amigo e o outro quer muito mais que isso. Continuaram a balançar no balanço que se um saísse, o outro caia. Karenin levantou. Ia embora. Alguém tinha que ir. Rudy ficou, balançado com a saída rápida dela. Ficou como sempre ficava, torcendo para que ela não soubesse que a seguiu até ali. Torcendo para que não soubesse que nunca ia desistir. E Karenin torcendo pra que ele ficasse bem. Bem longe dela, também.
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