quarta-feira, 12 de maio de 2010

Poeira de prateleira

Agora, estão os dois dançando mortalmente em um quarto em chamas. Lentamente, balançam num ritmo parecido com as luzes. Ou sombras. É meio difícil distinguir. O cenário é bem bonito, dramático. A boca dela sangra, e lembra-se dos beijos que deixaram marcas e feridas. No corpo dele, os machucados parecem cada vez piores e escuros. Se olham, e não sabem se amam ou se odeiam. Qual a diferença? Só sabem que sentem algo, forte e aburdo um pelo outro. Exagerados. Do coração ao fígado, puro exagero. E agora, ali, eles que sempre arderam a alma de coisas explosivas, agora ardem o corpo de fogo. Fogo vivo, puro. Literalmente. E continuam dançando, desajeitados, e morrendo. Derretem, viram cinza, cera, meleca, pó, pozinho, a última coisa que sentiram na vida: ser pó. E de tanto não caberem no pó, se espalharam de coração em coração se tranformando, aos poucos, em dor.

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